Surto de leishmaniose visceral em Minas preocupa estudiosos

Casos de leishmaniose visceral voltam a crescer em Minas Gerais. A doença, que pode ser fatal e também atinge os cães, tem diagnóstico difícil e tratamento complexo. UFMG é referência em pesquisa na área e, junto ao CTVacinas, busca soluções para o problema.

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Em 2017, o número de casos de leishmaniose do tipo visceral voltou a crescer em Minas Gerais. Até agosto de 2017, foram 31 casos de leishmaniose visceral em humanos notificados em Belo Horizonte, dos quais quatro resultaram em óbito. Desde os anos 2000, o pico de ocorrências da doença foi em 2008, quando a cidade registrou 161 casos e 18 óbitos. A professora e pesquisadora da UFMG e do CTVacinas Ana Paula Fernandes revela que, proporcionalmente, a leishmaniose sempre matou mais que a dengue.

O Brasil tem, em média, 4 mil casos de leishmaniose em humanos por ano, com uma taxa de mortalidade que gira em torno de 10%. Embora a dengue atinja um registro maior de casos, a taxa de mortalidade costuma ser menor (3%). Os dados, da Gerência de Controle de Zoonoses da Prefeitura, são preocupantes e apontam para a necessidade de ajustes na abordagem da rede de saúde pública.

Reduzir a taxa de mortalidade da doença depende do quão preparado está o sistema de saúde para diagnosticar os casos rapidamente. Há, no entanto, alguns obstáculos a serem superados.

Tratamento de animais hospedeiros: Medida individual x saúde pública

Assim como no caso da dengue, a prevenção da leishmaniose depende da eliminação do vetor. O acúmulo de matéria orgânica nos quintais das casas favorece a proliferação do mosquito palha, e as ações de conscientização da população fazem papel importante nessa etapa.

Por outro lado, tratamento dos cães infectados é encarado como uma medida individual. Até pouco tempo, o único método aprovado pelo ministério da saúde era o sacrifício. Hoje, existem outras alternativas, como a medicação e o uso de coleira inseticida. “Existe também uma vacina desenvolvida por pesquisadores da UFMG, com eficácia significativa na prevenção da doença e que vem sendo usada também para tratamento. Impedindo a proliferação do parasita, a vacina evita que o cão adoeça e transmita a leishmaniose para humanos e outros animais”, comenta Ana Paula.

O diagnóstico precoce dos cães assume importância fundamental na prevenção, já que a cura só é possível dependendo do estágio da doença e das condições de saúde do animal. Por outro lado, a viabilidade do tratamento também esbarra da capacidade do dono de minimizar os riscos de contágio e custear o tratamento. É possível que o cão seja medicado por anos sem eficácia, o que acaba sendo um sofrimento para o animal.

Controlar os surtos de leishmaniose depende, portanto, de um alinhamento de medidas governamentais junto a medidas individuais. “A doença dos cães não pode ser vista como algo isolado: é uma questão de saúde pública”, esclarece a pesquisadora.

Tratamento é complexo; UFMG avança em sua otimização

O Brasil é referência no tratamento da leishmaniose. No entanto, as medicações são tóxicas e trazem efeitos colaterais, não sendo indicadas para grupos como diabéticos, cardíacos e gestantes. Há uma droga alternativa, recomendada pela OMS, mas que tem um custo muito alto. Como a doença demora para apresentar sintomas, quando o diagnóstico acontece, o paciente pode estar muito debilitado, tornando a terapia mais delicada.

O tratamento exige um grande número de injeções, que podem se estender por muito tempo e nem sempre são eficazes. No caso da forma cutânea, A UFMG desenvolveu uma formulação capaz de simplificar esse tratamento. “O medicamento, que é de uso tópico, pode ser usado sozinho ou associado a outras medicações, trazendo mais comodidade para o paciente com um método menos tóxico e mais curto”, explica Ana Paula.

A tecnologia foi transferida para a Fiocruz, e passará por testes clínicos para clínicos para validar sua efiácia. “Em um cenário de médio prazo, é possível que o Brasil conte com essa alternativa”, completa.

Pesquisa é forte, mas carece de incentivo

A UFMG tem tradição na pesquisa em prevenção, diagnóstico e tratamento da leishmaniose, e segue propondo soluções para o problema a. Juntos, o CTVacinas e a sua spin-off Detechta, desenvolvem alternativas eficientes para prevenção, diagnóstico e tratamento da doença.

O grande obstáculo é a falta de incentivo financeiro. A pesquisa em biotecnologia é submetida a rigorosos testes de qualidade e à necessidade de investimento financeiro alto desde a pesquisa básica à produção em grande escala. Em tempos de crise no financiamento para pesquisa, a população acaba sofrendo o impacto.

O CTVacinas e sua spin-off Detechta têm investido em soluções para tratamento, vacinas e diagnóstico, incluindo protótipos e testes rápidos para diagnosticar a leishmaniose visceral canina e humana. A tecnologia já pode ser transferida para o setor produtivo público ou privado.

E o surto, é culpa de quem?

Dentre os motivos que podem justificar o aparecimento de um surto estão a eficiência das medidas de controle, que podem não ter apresentado um impacto significativo. Mas há aqueles sobre os quais não se tem controle: alterações climáticas, desmatamento, poluição podem contribuir para que o vetor se multiplique. A leishmaniose atinge a fase de manifestação clínica mais rápido, caso o indivíduo esteja subnutrido ou imunosuprimido, o que inclui as mudanças socioeconômicas na equação.

“Do ponto de vista da pesquisa, a pergunta permanente é: será que estamos fazendo um controle tão eficaz quanto nos anos anteriores? Sabe-se que houve uma mudança na forma como é feito o diagnóstico da leishmaniose. A redução da verba destinada a diversas instituições também têm impacto negativo relevante”, revela Ana Paula.

A redução do número de óbitos exige investimento e aprimoramento na rede de saúde pública como um todo – da prevenção ao tratamento. Só assim é possível manter um controle permanente, estabilizando o histórico.

Entenda o ciclo da doença

A leishmaniose é causada por um parasita, transmitido pela picada de um inseto conhecido como mosquito palha. Há vários tipos de leishmaniose no Brasil. As mais comuns são a cutânea, a mucosa, a cutânea difusa e a visceral. Algumas podem atingir tanto humanos quanto cães e outros mamíferos urbanos ou silvestres, como roedores.

A transmissão depende de cães ou roedores infectados. Isso porque no Brasil, o homem não é um hospedeiro eficiente como fonte de infecção para os vetores. Uma vez instalada no corpo, a infecção destrói tecidos como a pele, a faringe, a laringe, o baço e o fígado, causando lesões e comprometendo o sistema imune, a coagulação sanguínea e as funções renais.