Para especialistas, o isolamento feito na hora certa consegue barrar o avanço da Covid-19 - Fotos: Daniel Protzner/ALMG

Especialistas defendem isolamento e retorno controlado

Embora os números apontem para aprofundamento da crise econômica, combate à Covid-19 ainda exige cuidados.

A necessidade do isolamento social e os cuidados necessários para sair dele foram alguns dos pontos abordados por especialistas que participaram de debate, em Reunião Especial de Plenário na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), nesta quarta-feira (20/5/20).

Para Unaí Tupinambás, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Rômulo Paes, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), atendidos alguns requisitos básicos, é possível começar a relaxar o isolamento, mas isso precisa ser feito de forma controlada e planejada.

Ambos apresentaram estudos referentes a outros países, como China, Itália e Estados Unidos, para demonstrar que o isolamento feito na hora certa consegue barrar o avanço da Covid-19, no cenário de ausência de vacinas e remédios.

De acordo com Rômulo Paes, o protocolo para enfrentamento da Covid-19 no Brasil foi lançado no dia 6 de fevereiro, mas apenas no fim de março as primeiras medidas efetivas foram adotadas. Belo Horizonte foi apontada por ambos os estudiosos como um caso de sucesso, com o isolamento decretado no momento ideal.

Por isso, a transparência e a difusão responsável de informações, ao lado de medidas políticas coordenadas e planejadas, são consideradas por ele como essenciais para reduzir o número de infectados e para retomar as atividades aos poucos.

Para a flexibilização do isolamento social, os dois especialistas apontaram que é necessário, além de redução do número de casos e de mortes pela Covid-19, avaliar as condições do sistema de saúde local e garantir que medidas sanitárias sejam tomadas em ambientes públicos e em locais de trabalho.

Unaí Tupinambás (professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG), Beatriz Cerqueira (deputada estadual PT/MG), Agostinho Patrus (presidente da ALMG – PV/MG), Daniela de Britto Pereira (gerente de Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais – Fiemg MG)

Barreiras sanitárias – O professor do Instituto Tecnológico Federal do Sul de Minas, Sérgio de Oliveira Teixeira, defendeu que sejam adotadas na região medidas de contenção, por causa do fluxo de pessoas vindas dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, onde a situação sanitária é mais grave.

Para ele, uma atenção especial deve recair sobre o controle epidemiológico nas cidades, com a criação de postos de medição de temperatura corporal e aplicação de testes rápidos em estabelecimentos situados nas estradas, que podem ser vetores de transmissão da Covid-19.

De acordo com o pesquisador, o Sul de Minas é uma porta de entrada do vírus no Estado, e por isso, as rodovias de maior fluxo oriundo de outras unidades federativas deverão ser priorizadas. Ele alertou, ainda, para o aumento de casos no Triângulo Mineiro, que também faz divisa com São Paulo.

O presidente da Assembleia, deputado Agostinho Patrus (PV), informou que municípios do Sul, como Poços de Caldas, Extrema e Muzambinho, entre outros, já estão implantando barreiras, principalmente diante da decretação de feriado na cidade de São Paulo, nesta semana.

Economia deve se recuperar lentamente

Após a pandemia, a economia mineira deve se recuperar de forma lenta, entre o fim de 2021 e o início de 2022. A previsão é da gerente de Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Daniela Pereira.

A representante da Fiemg advertiu para a queda na atividade econômica 

A representante da Fiemg, Daniela Pereira, advertiu para a queda na atividade econômica.

As projeções do PIB apontam para uma queda de 5,7% em nível nacional e 7% em nível estadual, em 2020. Neste ano, entre os setores econômicos, apenas a agropecuária e a indústria extrativa deverão apresentar aumento, com 4,5% e 0,5%, respectivamente.

Já a indústria geral deverá ter quedas de 4,9% no Brasil e 5,3% em Minas, e a construção, de 6,1% e 4,7%, respectivamente. O setor de serviços deverá apresentar desempenho ainda pior, de 6,9% e 8,8%.

A gestora destaca que contribuem para a piora das expectativas o atual ambiente político, desfavorável às reformas estruturais, e um problema crônico, a baixa produtividade.

Daniela Pereira afirmou acreditar que é possível conciliar a preservação da vida e a redução dos impactos sobre a economia. Nesse sentido, elogiou o programa Minas Consciente, do Governo do Estado, que regula a flexibilização do isolamento.

Deputados divergem sobre política de flexibilização

Os membros das Comissões de Educação, Ciência e Tecnologia e de Saúde, que participaram da reunião, divergiram em suas considerações.

A presidenta da Comissão de Educação, deputada Beatriz Cerqueira (PT), criticou a falta de testes no Estado e de informações sobre os casos suspeitos. Em sua opinião, não há como definir uma política eficaz de enfrentamento da pandemia se não se sabe o número de pessoas infectadas. Ela também criticou o programa Minas Consciente, por transferir para os municípios a responsabilidade pela decisão de reabrir ou não o comércio. “A abertura pode nos levar a um novo surto”, afirmou.

Os deputados Betão (PT) e Professor Cleiton (PSB) concordaram com a colega. “Há uma falta de visão de pessoas que não conseguem perceber que a causa da crise não é o isolamento, mas o próprio vírus, que veio desnudar um modelo que precisa ser implodido, o da informalidade trabalhista, uma escravidão moderna”, declarou Professor Cleiton.

Em sentido contrário, o deputado Coronel Sandro (PSL) questionou a eficácia do isolamento social. Ele disse que estados brasileiros que adotaram o lockdown, com manutenção apenas dos serviços essenciais, estão com número elevado de pessoas contaminadas.

Ao confirmar apoio ao isolamento como medida de se evitar o contágio, o deputado Bartô (Novo) ponderou que ele não pode se prolongar, sob o risco de aprofundar a crise econômica. “Economia é vida sim, e a gente está começando a matá-la”, declarou.

O presidente da Comissão de Saúde, deputado Carlos Pimenta (PDT), considerou que, com o fechamento das atividades, o setor de serviços tem mais facilidade para se reinventar, diferentemente da indústria, que exige alterações grandes nos processos produtivos.