Corrida de Stock Car vai comprometer funcionamento de Hospital Veterinário da UFMG

Fotos: Guilherme Bergamini/ALMG

Corrida de Stock Car vai comprometer funcionamento de Hospital Veterinário da UFMG

Em visita à Escola de Veterinária, diretores disseram que unidade ficará fechada durante 19 dias que envolvem o evento, em agosto, na Capital.

Fotos: Guilherme Bergamini/ALMG

O funcionamento do Hospital Veterinário (HV) da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o maior entre os que existem nas instituições federais do País, vai ficar comprometido durante a realização da corrida de Stock Car na Capital mineira.

É o que afirmaram diretores e professores da Escola de Veterinária, nesta sexta-feira (24/5/24), durante visita da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) ao local.

Para o diretor da Escola de Veterinária, Afonso de Liguori, como a pista fica a cerca de 50 metros do HV e o acesso ao hospital vai ficar fechado no decorrer da iniciativa, não resta outra alternativa a não ser fechá-lo durante os 19 dias que envolvem o evento, em agosto.

A vice-diretora da escola, Eliane Gonçalves de Melo, prevê que, nesse período, deixem de ser atendidos 3 mil cães e gatos e cerca de 20 equinos. Além disso, ela disse que os animais residentes no local, entre eles, cães, bois, cavalos e cabras precisarão ser deslocados para outro espaço.

O Hospital Veterinário é composto pelos setores de clínica médica nas diversas especialidades, clínica cirúrgica, patologia, reprodução e divisão de enfermagem. O estabelecimento realiza 35 mil atendimentos por ano e os procedimentos abrangem consultas, cirurgias, exames de imagem e laboratoriais. Todas as espécies de animais domésticos são atendidas e também algumas espécies de animais silvestres.

Impactos já são sentidos

As obras para o evento começaram em março e a comunidade acadêmica já tem sentido os impactos na rotina como poeira e barulho excessivo. Com as intervenções, eles relataram que o acesso à unidade já tem sido modificado.

A expectativa dos diretores é que o barulho se intensifique nos dias de treinos e nos da corrida propriamente dita, com a velocidade dos carros. E esse barulho excessivo pode gerar estresse noa animais.

Além disso, a interrupção do acesso ao HV e mudanças no trânsito na região vão dificultar que pessoas levem seus animais até o local, bem como tornar mais complicada a continuidade no tratamento.

“Não tem como a gente atender de forma segura durante esse tempo”, disse Afonso de Liguori, lamentando pela desassistência que vai ser gerada aos animais.

A professora da área de equinos da Escola de Veterinária, Renata Maranhão, enfatizou que não há precedentes para saber os efeitos reais nos animais. Mas acredita que o som alto vai prejudicá-los, sobretudo os de grande porte, que ficam em espaços abertos.

“Com os estudantes também manipulamos esses animais que, submetidos ao barulho, podem se assustar e ter alguma reação abrupta, gerando risco para todos.”
Renata Maranhão
Professora da área de equinos da Escola de Veterinária

Equipamentos sensíveis a trepidação

O diretor e a vice-diretora da Escola de Veterinária falaram  ainda que a trepidação gerada pelas obras e a que ainda será gerada pela corrida também colocam em risco os equipamentos da Escola de Veterinária.

O custo estimado desses aparelhos é de R$ 40 milhões. Eles são bastante sensíveis e precisam estar calibrados corretamente para desempenhar bem sua função.

Um deles fica no Laboratório de Análise da Qualidade do Leite, que integra a estrutura da escola e que também foi visitado nesta sexta (24), e tem o valor de R$ 9 milhões.

Levamos uma vida para conseguir esse equipamento. Ele é muito caro e sensível. Não sabemos qual poderia ser o impacto exato, que pode ir de uma descalibragem até uma avaria grave.”
Eliane Gonçalves de Melo
Vice-diretora da Escola de Veterinária

Ela ainda contou que o laboratório é credenciado pelo ministério da agricultura para fazer a análise do leite do Sudeste e nordeste do brasil. Ele é o único que  faz isso em Minas Gerais.

Outro ponto visitado pela comissão foi o Laboratório de Aquacultura, que conta com 27 mil peixes. Nesse caso, os professores também se preocupam com o barulho, em como a água pode potencializar o som.

A coordenadora do curso de Aquacultura da Escola de Veterinária, Cintia Nakayama, explicou que entre os peixes há o tambaqui, nativo da região amazônica, o qual é objeto de uma linha de pesquisa. Como contou, sua manutenção tem custo elevado.

“Não sabemos, por exemplo, se o barulho pode impactar e gerar estresse, comprometendo a reprodução do animal, que ocorre num período muito curto. Se isso ocorrer, compromete toda a pesquisa, que não vai ter o desempenho esperado. Então, o aluno de mestrado ou doutorado não consegue publicar seu estudo, por exemplo”, disse.

Falta de diálogo

O diretor e a vice-diretora da escola relataram falta de diálogo com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) em relação à corrida de Stock Car. De acordo com eles, em momento algum houve explicação sobre o que ocorreria e análise dos possíveis impactos.

Eles também se preocupam com a possibilidade de o local ser palco de outros eventos além da corrida, cujo contrato é de cinco anos, o que permite outras edições.

A deputada Beatriz Cerqueira (PT), presidenta da comissão e que solicitou a visita em conjunto com a deputada Bella Gonçalves (Psol), disse que vai remeter o relatório da visita desta sexta (24) à PBH e aos organizadores e patrocinadores da corrida de Stock Car.

De acordo com ela, novamente haverá a recomendação de mudança de local para a realização do evento.

A parlamentar disse que ficou impressionada com a proximidade entre o local onde será a pista e o Hospital Veterinário.

“Nós aceitaríamos uma corrida de carros ao lado do Hospital João XXIII? Ao lado do Hospital das Clínicas? Não. Então não faz o menor sentido a prefeitura e os organizadores ignorarem o complexo veterinário e o risco de morte que o empreendimento pode gerar.”
Dep. Beatriz Cerqueira

A visita integra uma série de ações da comissão para avaliar os impactos da corrida na UFMG. Já foram realizadas uma audiência sobre o assunto e uma visita ao Biotério Central da universidade.