Agregar valor ao minério é caminho necessário para sustentabilidade dos territórios minerados

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Agregar valor ao minério é caminho necessário para sustentabilidade dos territórios minerados

Debate sobre justiça socioambiental e tributária da mineração discute soluções para reduzir o impacto da atividade.

A necessidade de aumentar a arrecadação tributária para atividades mineradoras e de agregar valor ao produto deram o tom das discussões da manhã no debate público “Justiça Socioambiental e Tributária e as Atividades de Mineração”. As discussões serão realizadas ao longo de toda esta segunda-feira (11/8/25) pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).

A deputada Bella Gonçalves (Psol), autora do requerimento que deu origem ao debate, resumiu algumas das soluções que têm sido propostas: Fundo Soberano dos Municípios, regulamentação do caução ambiental, revisão da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (Cfem). Ela destacou, ainda, que não se trata de proibir a mineração, mas de discutir seriamente seus impactos e buscar soluções para os maiores problemas socioambientais.

Prefeito de Itabira, Marco Antônio Lage explicou que os empregos gerados pela mineração constantemente são de baixos salários e terceirizados, o que não ajuda a elevar a qualidade de vida no município –
Foto: Gabriel Nascimento/ALMG

Agregação de valor ao minério é uma das soluções discutidas

Segundo o prefeito de Itabira (Região Central), Marco Antônio Lage, a mineração nunca será sustentável, mas é preciso discutir a sustentabilidade dos territórios minerados. Ele destacou que seu município é sede de atividade mineratória há 83 anos e faltam agora 16 anos de extração mineral na região, mas poucos benefícios restam, segundo o prefeito.

O convidado explicou que Itabira tem um IDH mais baixo que a média estadual e é dependente de uma única empresa, a Vale. Antes da mineração, duas indústrias têxteis tinham sede no município, que também era o maior produtor de banana de Minas Gerais. Ainda, 500 milhões de metros cúbicos de rejeitos estão armazenados em Itabira e ainda não se sabe o destino desse material.

Estudos citados por Marco Antônio Lage apontam que municípios mineradores têm custo de vida 40% superior e gastos em saúde pública 70% maiores do que cidades semelhantes sem mineração. Nesse sentido, ele explicou que os empregos gerados, constantemente são de baixos salários e terceirizados, o que não ajuda a elevar a qualidade de vida no município.

Tendo isso em vista, Marco Antônio Lage indicou que a discussão mais importante é sobre como agregar valor ao minério. Ele lembrou que o beneficiamento do minério de ferro produz menos impactos negativos, gera empregos mais qualificados e gera mais lucros. A exportação exclusiva de minério in natura foi chamada por ele de neocolonialismo.

Agir para melhorar a agregação de valor ganha ainda mais importância, destacou o convidado, diante da relevância das discussões atuais sobre terras raras, que contém metais como nióbio e níquel. “Se não enfrentarmos esse desafio agora, vamos repetir o que vem sendo feito há décadas”, disse. “Precisamos deixar de ser território passivo dos impactos da mineração para sermos ativos nas decisões sobre nosso futuro”, completou.

Somente entre 2017 e 2024, os empreendimentos de mineração sonegaram R$ 20 bilhões à União, estados e municípios de onde os minerais são extraídos, segundo informações do Tribunal de Contas da União.

Impactos da mineração nos territórios

A coordenadora estadual do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Elizete Pires de Sena, corroborou com o convidado e destacou os impactos negativos da mineração nos territórios. Ela falou sobre mentiras usadas pelas empresas para reduzirem a resistência à instalação das suas atividades, da inviabilização das atividades econômicas estabelecidas anteriormente nas regiões (como agricultura) e dos problemas de saúde gerados nas populações locais.

Debate Público - Justiça Socioambiental e Tributária e as Atividades de Mineração - Mesa de abertura

Professor da Universidade Federal de Itajubá, Leonardo Reis apontou, como consequências da mineração em Itabira, a poluição atmosférica, a insegurança hídrica e a sensação de insegurança da população, além da dependência econômica do município.

Ele citou estudos os quais indicam os impactos da poluição na saúde da população, como internações por doenças respiratórias e mortes prematuras. Segundo o professor, estudo de impacto ambiental da própria Vale sobre a ampliação das cavas em Itabira conclui que o limite de poluição será ultrapassado de oito a 10 vezes por ano.

Quanto à insegurança hídrica, ele observou que a ampliação dessas cavas vai resultar no rebaixamento do lençol freático. Leonardo também citou termo de ajustamento de conduta (TAC) firmado pela Vale que aponta como solução para a falta d’água a transposição do Rio Tanque, sendo que a própria empresa vai utilizar dois terços da nova capacidade de 600 litros por segundo. Três quartos da outorga para uso da água no município é usada pela mineração e apenas 19% para o consumo humano.

Ainda de acordo com o professor, são 15 barragens com alto dano potencial em Itabira, com 5 mil casas na zona de autossalvamento, o que deixa os 110 mil habitantes da cidade em constante estado de alerta.

Sobre a minero-dependência, ele informou que 27% dos empregos são ligados diretamente à atividade, bem como 48% dos salários. Em relação ao ICMS, 80% da arrecadação vem da mineração.

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