Projeto articulado pelo TJMG e parceiros com os Maxakali é finalista de prêmio da Unesco

WhatsApp
Facebook
Imprimir

Iniciativa levou capacitação em segurança elétrica para as aldeias

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) está entre as instituições responsáveis por uma iniciativa que acaba de se tornar finalista do Unesco-Unevoc Global Awards for Innovation in TVET, premiação internacional que reconhece inovações na educação e na formação técnica. O resultado será anunciado em 2/12 de 2026.

O projeto, que levou capacitação em segurança elétrica aos indígenas do povo Maxakali, nasceu de uma articulação direta do Judiciário mineiro com outras instituições para enfrentar riscos graves nas aldeias.

Equipe da 3ª Vice-Presidência do TJMG visitou aldeias Maxacali para acompanhar a capacitação em segurança elétrica destinada aos indígenas (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG).

Para o juiz auxiliar da 3ª Vice-Presidência do TJMG, Matheus Moura Matias Miranda, à época titular da Comarca de Águas Formosas (que abarca municípios atendidos pela ação) e um dos responsáveis pela concepção da iniciativa, a urgência surgiu após acidentes fatais com energia elétrica ocorridos entre o fim de 2023 e o início de 2024.

“Isso gerou uma comoção interna e externa muito grande, e eles passaram a pedir um projeto voltado para a energia”, disse o magistrado.

“A partir desse fato, acionamos a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), que direcionou a demanda para o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), e construímos o projeto também com o Ministério Público Federal (MPF) e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai)”, completou.

Avaliando os resultados práticos e o legado cultural, o juiz destacou o impacto transformador da ação: “A riqueza do projeto está no respeito à cultura e à língua, aliado ao conhecimento técnico. A formação é bilíngue, tanto na oralidade, com tradução, quanto nos materiais escritos e audiovisuais. Hoje temos vários indígenas que passaram por essa capacitação.”

Sobre a adaptação técnica às características do povo, cujas famílias mudam com frequência o local de suas moradias, o magistrado detalhou a solução encontrada: “Foi construído um material específico para eles, que permite que, com essa mudança, os equipamentos sejam levados e reaproveitados. É uma solução de fácil mobilidade pensada para essa realidade.”

Indígenas participaram de ação para garantir segurança no uso e na manutenção da rede elétrica (Crédito: TJMG / Divulgação)

A autonomia gerada pela iniciativa também rendeu frutos. Após uma pane elétrica recente em uma das aldeias, os próprios indígenas resolveram a situação de forma segura.

“Eles acionaram as lideranças que tinham feito o curso do Senai, e o problema foi resolvido por eles mesmos. Conseguiram utilizar o material que havia ficado e restabelecer a energia com os conhecimentos adquiridos no curso. Isso me deixou muito emocionado e mostrou que estamos no caminho certo”, relatou o juiz Matheus Moura Matias Miranda.

E concluiu: “A avaliação dos resultados é a melhor possível. Os números mostram o alcance nas aldeias e comunidades, mas casos como esse mostram qualitativamente o resultado. Hoje é um projeto celebrado e reconhecido pelos Maxakali, o que, a nosso ver, é o mais importante.”

Para a 3ª vice-presidente do TJMG e superintendente de Tratamento Adequado dos Conflitos de Interesses (Sutrac), desembargadora Shirley Fenzi Bertão, a indicação desse projeto a um prêmio internacional da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) demonstra que o papel do Tribunal de Justiça de Minas Gerais vai muito além da solução tradicional de processos:

“Nossa atuação na articulação desta iniciativa reflete o compromisso do Judiciário com a dignidade humana, a prevenção de tragédias e a pacificação social. Ver o povo Maxakali se apropriando desse conhecimento técnico com segurança e autonomia é a prova de que, quando as instituições se unem para entender e respeitar a realidade local, nós entregamos a verdadeira justiça.”

Instalações da comunidade Maxacali foram reestruturadas na ação de manejo (Crédito: Divulgação / TJMG)

União de forças para uma solução técnica e cultural

A partir dessa articulação iniciada pelo TJMG, a parceria com o Senai, Cemig, Funai e MPF ganhou forma. O foco foi capacitar os indígenas para o manejo seguro da energia e reestruturar instalações elétricas de baixa tensão em territórios como Água Boa e Pradinho, no Vale do Mucuri.

Antes da intervenção, as equipes encontravam fiações improvisadas com sacolas plásticas e arames farpados.

Diante desse cenário, o Senai desenvolveu uma solução técnica composta por quadros elétricos instalados em postes e kits seguros para o interior das casas de pau a pique, pensados justamente para acompanhar a mobilidade das famílias.

Para que o conhecimento fosse incorporado à rotina, o Senai aplicou uma metodologia dividida em acolhimento, letramento elétrico e prática.

“O projeto com o povo Maxakali nos ensinou que levar conhecimento técnico para uma comunidade não significa simplesmente reproduzir uma formação que já existe. É preciso conhecer a realidade, respeitar a cultura e construir, junto com as pessoas, uma solução que faça sentido para elas”, destacou o gerente de Tecnologia e Automação Industrial do Senai/MG, Ricardo Aloysio.

O gerente da Unidade de Escolas Móveis do Senai/MG, Elmar Bueno, destacou: “Um dos principais objetivos era não apenas substituir instalações inadequadas, mas deixar conhecimento dentro das próprias comunidades.”

Comunidade recebeu aulas teóricas e práticas de capacitação para o manejo seguro da energia elétrica (Crédito: Divulgação / TJMG)

Impacto nas aldeias

Ao todo, a rede de apoio formada pelo TJMG e seus parceiros resultou na capacitação de 108 indígenas durante os dois anos de projeto, e as ações alcançaram 115 casas em 28 aldeias. O suporte estrutural foi garantido pela Cemig, que forneceu materiais essenciais para a adequação das instalações elétricas.

Segundo o engenheiro de Eficiência Energética da autarquia, Matheus Herzog, foram entregues centenas de caixas elétricas, além de ferramentas, fiação e lâmpadas de LED:

“A proposta foi juntar as duas coisas: capacitar os indígenas para que possam fazer extensões internas com mais segurança e fornecer os materiais necessários para as adequações imediatas.”

Como legado adicional, a iniciativa rendeu a criação de uma cartilha bilíngue, com ilustrações feitas com a participação dos próprios indígenas. O material também foi distribuído em escolas estaduais da região.