Delegada destaca entraves à eficácia de medidas protetivas

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Delegada destaca entraves à eficácia de medidas protetivas. Segundo Kíria Orlandi, formalidades exigidas por instituições prejudicam enfrentamento da violência contra mulheres.

Evento celebra o Dia Internacional da Mulher e se estende por toda a sexta-feira (12) – Fotos: Reprodução

Formalidades têm comprometido a eficácia de medidas protetivas para mulheres que sofrem violência. Essa afirmação foi feita pela delegada titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Diamantina (Região Central), Kíria Orlandi. Ela participou, na manhã desta sexta-feira (12/3/21), do painel sobre o enfrentamento da violência do seminário virtual “Mulheres na luta: novos desafios trazidos pela pandemia e perspectivas”.

O seminário faz parte do “Sempre Vivas: luta das mulheres em tempos de pandemia”, conjunto de iniciativas do Legislativo mineiro que marca o Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março. O evento continua na parte da tarde, com a discussão de outras temáticas.

Kíria Orlandi enfatizou que processos dessa natureza não podem seguir as mesmas regras que outros. “É preciso diminuir as formalidades que o Poder Judiciário coloca para deferimento e execução de medidas protetivas. Um juiz, por exemplo, pode permitir vista ou diligência a um promotor no decorrer de um inquérito policial, o que atrasa o processo. Se tudo isso é permitido, o assunto não é urgente. Se o Judiciário não entende a questão como urgente, então, se trata de uma violência institucional”, afirmou.

De acordo com a delegada, a eficácia da medida protetiva se dá com a intimação do agressor. “Há casos em que a vítima foi intimada e o agressor não. Há relatos de agressores que vivem em distritos na zona rural da nossa região que fogem da intimação. E, como não foi formalmente intimado, não é estabelecida uma proteção e a mulher segue em risco, com a permanente possibilidade de ser morta”, disse.

Kíria Orlandi destacou como um ganho, na pandemia, a possibilidade de se fazer um requerimento para medida protetiva de modo remoto, embora a iniciativa possa ficar comprometida pela falta de acesso e de instrução para lidar com a ferramenta, como tem ocorrido na região que atua, como contou.

Instituições devem atuar na prevenção

“Precisamos interromper esse ciclo (do feminicídio), agindo de modo mais eficiente quando a mulher pede socorro", pontuou Kíria Orlandi 

“Precisamos interromper esse ciclo (do feminicídio), agindo de modo mais eficiente quando a mulher pede socorro”, pontuou Kíria Orlandi.

A delegada Kíria Orlandi reforçou que o feminicídio é resultado de um processo. “Não acontece de uma hora para outra em relacionamentos saudáveis. Começa com violência verbal, depois vem a violência física leve e progride até chegar no término da vida da mulher”, relatou.

Ela acrescentou: “Precisamos interromper esse ciclo, agindo de modo mais eficiente quando a mulher vai até as instituições pedir socorro. É necessário um diálogo maior entre as instituições. Precisamos de estrutura para atendimento e ações focadas mais na prevenção do que na punição”, defendeu.

A coordenadora da Defensoria Pública Especializada na Defesa dos Direitos da Mulher em Situação de Violência (Nudem), Samantha Vilarinho Mello Alves, também aposta na prevenção para minorar a violência contra as mulheres.

“Os números de violência contra mulheres só aumentam, foram intensificados na pandemia. Acredito que a educação em direito deve ser o foco das instituições”, afirmou, acrescentando que a Defensoria faz uma trabalho robusto nesse aspecto.

A defensora pública relatou que, no Estado, há oito comarcas com atuação especializada na defesa dos direitos desse público. Conforme contou, a atuação se dá em dois prismas, o primeiro deles judicial, para deferimento de medidas protetivas de urgência, e o outro, o extrajudicial, com atuação jurídica relativa a diversos direitos das mulheres que sofrem violência de gênero.

Discurso de ódio na internet

Segundo Isabela Damasceno, muitos se sentem invioláveis na rede 

Segundo Isabela Damasceno, muitos se sentem invioláveis na rede.

A advogada, pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e conselheira do Comitê Estadual de Educação em Direitos Humanos, Isabela Damasceno, abordou o discurso de ódio sexista na internet.

“Com a pandemia, fazemos tudo pela internet. Então a situação se agrava porque muitos se sentem invioláveis na rede. Sentem que podem incitar o ódio e propagar conteúdos com violência de gênero”, enfatizou.

Conforme destacou, esse discurso se torna ainda mais ofensivo quanto se refere a uma mulher negra e com orientação sexual diferente da considerada normal. “Precisamos lidar com isso promovendo o contra discurso e o debate”, defendeu.

Luta pela dignidade – A ativista LGBTQIA+ Dani Nunes fez um relato sobre as violências e dificuldades enfrentadas pela mulher trans no Brasil. Ela apontou que a luta começa já na infância, no momento em que a criança começa a se descobrir e, muitas vezes, é rejeitada e expulsa do seu núcleo familiar.

Dani Nunes acrescentou que essas dificuldades continuam depois no ambiente escolar e, em seguida, no mercado de trabalho. Segundo ela, a prostituição acaba por ser a única forma que uma mulher trans tem para garantir sua sobrevivência.

A ativista defendeu a criação de políticas públicas que enfrentem essas questões e garantam a dignidade da população trans no Brasil.

Assembleia vai analisar projetos sobre pautas femininas

Na abertura do evento, o presidente da Assembleia, deputado Agostinho Patrus (PV), assumiu o compromisso de pautar a análise dos temas e sugestões de legislação que tratem de temáticas das mulheres e que surgirem durante a realização do Sempre Vivas.

Ele também apontou que a pandemia acabou por agravar as injustiças enfrentadas pelas mulheres, com o acúmulo de funções de trabalho e de educação dos filhos, além do aumento da violência doméstica.

A presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, deputada Ana Paula Siqueira (Rede), também garantiu que as discussões do seminário terão continuidade na comissão, com a transformação dos temas debatidos em políticas públicas e ações de fiscalização.

Coordenadora do Sempre Vivas deste ano, a vice-presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, deputada Andréia de Jesus (Psol), falou sobre a importância das mulheres para a reconstrução do País, que além da pandemia, enfrenta um desmonte das políticas públicas e sociais.

A deputada Ione Pinheiro (DEM) defendeu um aumento no número de delegacias especializadas. Já a deputada Laura Serrano (Novo) tratou da importância do crescimento da participação política das mulheres até mesmo para que seja garantida a destinação de recursos públicos para as pautas femininas.

Por fim, o deputado Zé Reis (Pode) defendeu a criação de políticas públicas que garantam um tratamento igualitário para as mulheres, em especial, no mercado de trabalho.

União – A promotora de Justiça Patrícia Habkouk também destacou a relevância da união das instituições e apontou que a pandemia tem contribuído para deixar as mulheres mais expostas à violência.

Representando o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, a desembargadora Sandra Fonseca apontou que o Judiciário mineiro tem como prioridade o combate à violência contra as mulheres e falou sobre a criação de varas específicas que cuidam do tema.

Já a representante da Defensoria Pública do Estado, a defensora pública Raquel da Costa Dias, apontou que a instituição trabalha diariamente na defesa e conscientização das mulheres que se encontram em situações de violência.