Mostra “Oriará”, que celebra culturas indígenas e afro-brasileiras, encerra sua itinerância na cidade de Belo Vale.
Exposição do Memorial Vale percorreu o estado em carreta adaptada com obras contemporâneas que dialogam com ancestralidade, cotidiano e novos imaginário.
Em Belo Vale, o público poderá conferir a mostra gratuitamente e participar de oficinas, apresentações artísticas e atividades educativas de 1 a 6 de julho.

A exposição itinerante “Oriará – Arte e Educação em Movimento”, realizada pelo Memorial Minas Gerais Vale, faz a sua última parada na cidade de Belo Vale após percorrer nove cidades mineiras. A mostra, que será inaugurada na próxima terça-feira, dia 1º de julho, na Praça da Prefeitura, apresenta obras de artistas negros e indígenas de diferentes partes de Minas Gerais e convida o público a refletir sobre oralidade, território, linguagem, tecnologias e o bem viver. A abertura contará com Leandro Chuim, da banda Chukaka, em um pocket show voltado para crianças. Estruturada em uma carreta de 15 metros adaptada para receber as obras, “Oriará” faz parte do projeto Memorial Vale Itinerante, que está levando arte contemporânea e debates culturais a dez cidades do estado. Durante a permanência da exposição, Belo Vale também contará com uma programação especial de ações culturais e educativas. O público poderá visitar a mostra até o dia 6 de julho, de terça a sexta, das 8h às 16h, e aos sábados e domingos, das 9h às 17h.
Com curadoria do Programa Educativo do Memorial Vale, a mostra utiliza a arte como ferramenta de diálogo e encontro, buscando aproximar o público de perspectivas importantes sobre a história coletiva e das múltiplas heranças culturais indígenas e afro-brasileiras em Minas Gerais a partir de três eixos: (Re)existências, Cotidianos e Futuros.

“O Memorial Vale acumula em sua trajetória muitas experiências e práticas que privilegiam as tecnologias e as histórias dos povos originários e afro-brasileiros no território mineiro, como a exposição itinerante Africanidades e Mineiridades, ações com aldeia indígena Katurãma dos povos Pataxó e Pataxó Hã hã Hãe, a instalação educativa Sementes da Diáspora, dentre outras. A exposição Oriará oferece uma oportunidade única de conhecer a produção artística contemporânea mineira e aprofundar o conhecimento sobre as culturas indígenas e afro-brasileiras”, explica Wagner Tameirão, gestor do Memorial Vale.
“Ori” é uma palavra que vem do Yorubá, cujo significado literal é cabeça. É raiz da palavra Orixá, que designa divindades africanas cultuadas nos territórios brasileiros. Pode-se considerar que “Ori” se refere a um orixá que vive dentro das nossas cabeças, manifestando-se como uma faísca de vida que nos habita. “Ará“, conforme o dicionário Tupi-Guarani, tem alguns significados: dia, sol, nascer, surgir, todo ser vivente, tempo. “Oriará” abre caminhos para a transmissão de conhecimentos e compartilhamento de ideias, volta-se aos modos de vida e à própria presença dos povos indígenas e afro centrados.

Para traduzir o conceito da exposição Oriará, a curadoria estabeleceu três eixos fundamentais: Cotidianos, com reflexões sobre o modo de viver e meio em que se vive; (Re)Existências, com estratégias para viver e existir, e Futuros, com elaborações sobre um futuro abundante construído a partir da ancestralidade. Tais eixos representam distintos pontos de partida para as discussões e os diálogos propostos, relativos à força e à importância das presenças indígenas e afro-brasileiras na sociedade.
A exposição “Oriará” apresenta um conjunto diversificado de obras que exploram diferentes linguagens e abordagens, conectando o público com as ricas heranças culturais presentes em Minas Gerais. Edgar Kanaykõ Xakriabá, indígena Xacriabá e mestre em Antropologia, utiliza a fotografia como ferramenta de expressão, compartilhando momentos de cuidado, jogos e cultos de seu povo. A obra “Hemba” (fotografia sobre tecido) tensiona preconceitos e visões enrijecidas sobre os povos indígenas, revelando a importância de seus territórios.
Os Tikmũ’ũn, da Aldeia Escola Floresta Maxakali no Vale do Mucuri, apresentam a obra imersiva “O Que Tem na Roça” (animação digital, desenhos em caneta hidrocor e lápis de cor sobre papel). A obra retrata a diversidade de plantas cultivadas na aldeia e denuncia a destruição da mata, preservando saberes e memórias ancestrais.

Froiid, artista multidisciplinar, aborda o cotidiano popular a partir dos jogos. A obra “Os Petelecos” são jogos de tabuleiro feitos com madeira e pregos, que, na obra do artista, assumem vários formatos. Por meio da arte de jogar, o artista traz ao público um pouco da cultura periférica, de ruas e becos que dialoga fortemente com as heranças afro-indígenas de nosso país a partir dos ditos populares e regras de ser e pertencer a uma comunidade.
O artista visual Marcel Dyogo apresenta “Já Quase Esqueci Seu Nome” (caixas de papelão, papel manteiga e iluminação), uma obra sensível que questiona o apagamento de informações sobre as comunidades indígenas em Minas Gerais. As caixas reunidas formam conjuntos com nomes das 14 comunidades indígenas existentes no Estado.
Dayane Tropicaos, artista visual de Contagem, discute questões de gênero, raça e classe em suas obras. A instalação “Abre Caminho” (uniformes, serigrafia e vídeo) questiona os lugares impostos a populações subalternizadas na sociedade brasileira. A obra é composta por 10 uniformes de trabalho que referem-se a diversas ocupações profissionais que são vistas na sociedade como desvalorizadas.
Jorge dos Anjos, com formação na Fundação de Arte de Ouro Preto, transita entre desenho, pintura, escultura e design. “Obra” (pintura sobre lona de caminhão) combina símbolos geométricos e escritas ancestrais, conectando passado e presente. Jorge intersecciona temporalidades que abarcam a genialidade e o requinte técnico desenvolvido pelos povos negros, incluindo a rede de comunicação estabelecida em diáspora, quando suas identidades se ressignificaram no Brasil.
Finalmente, o “Varal dos Saberes” é uma obra interativa que convida o público a refletir sobre os eixos curatoriais da exposição através de perguntas, imagens e um mapa digital com informações sobre a ocupação territorial de Minas Gerais por povos indígenas e comunidades quilombolas. Nesta obra os eixos curatoriais se manifestam a partir de seis perguntas, em que a curadoria oferece um grupo de palavras e imagens de celebrações, alimentos e experiências relacionadas aos povos indígenas e quilombolas.

Oficinas, contação de histórias, capoeira e congado integram programação cultural gratuita em Belo Vale
Belo Vale receberá também uma programação paralela à exposição itinerante Oriará, com uma série de atividades gratuitas voltadas para a valorização das culturas africanas, indígenas e afro-brasileiras. As ações acontecem na Praça da Prefeitura (Avenida Tocantins, nº 57) e integram o projeto Gerais Cultura de Minas, do Memorial Vale. Todas as atividades são gratuitas e sujeitas à lotação.
A agenda tem início pela manhã nos dias 5 e 6/07, às 10h, com as Visitas Brincantes. A proposta é oferecer uma experiência lúdica e educativa por meio da contação de histórias, jogos e brincadeiras inspiradas nas culturas africanas e indígenas. As atividades convidam os participantes a vivenciar a coletividade de forma criativa e prazerosa, estimulando o aprendizado por meio do brincar. No dia 5/07, a visita contará com acessibilidade em Libras. As vagas são limitadas.
Às 14h, também nos dois dias, será realizada a Oficina Máscaras Afrofuturistas, que propõe um diálogo com a obra do artista Jorge dos Anjos. A atividade convida o público a refletir sobre o afrofuturismo na arte, por meio da criação de máscaras com formas e estética relacionadas à temática. As vagas são limitadas e a participação é gratuita.
Na sexta-feira, 5/07, às 11h, a programação conta com a contação de histórias com a dupla AR, formada por Afonso e Rosângela. Pedagogos e pesquisadores de brincadeiras e canções africanas, eles promovem narrativas, músicas e danças que valorizam as culturas afrodescendentes e de diversas regiões do Brasil. A atividade também terá acessibilidade em Libras.
Mais tarde, às 16h, o mestre de capoeira China PQD (Lúcio Mendonça de Arruda) conduz uma roda de capoeira aberta ao público. Atuante há 18 anos na região de Belo Vale, o mestre desenvolve um trabalho voltado para a valorização da prática ancestral da capoeira, com presença nos quilombos de Vargem de Santana, Chacrinha dos Pretos, Boa Morte e na comunidade Córrego dos Pintos.
Encerrando a programação, no sábado, 6/07, às 16h, haverá a apresentação da Guarda Moçambique Nossa Senhora do Rosário de Belo Vale, grupo fundado em 1957 pelo ferroviário José Lourdes, conhecido como senhor Pedro Lodo, junto a amigos. Com mais de seis décadas de história, a Guarda alcançou um marco em 2024 ao ser liderada pela primeira vez por uma mulher, a presidente Elaine Ribeiro.
Memorial Vale Itinerante
“Oriará – Arte e Educação em Movimento” integra uma etapa da renovação do Memorial Vale, que, enquanto realiza a revitalização de sua sede, continua com sua programação através do projeto Memorial Vale Itinerante. “Estamos levando a essência do Memorial para outros espaços, garantindo que o público continue a ter acesso às atividades culturais gratuitas e relevantes, enquanto são realizadas as intervenções de requalificação, como a criação de novas estruturas de acessibilidade e áreas para atender a multipúblicos, com o objetivo de valorizar ainda mais o prédio que abrigou a antiga Secretaria de Estado da Fazenda. Com exposições como esta, estamos cumprindo nosso papel de difundir conhecimento e promover experiências transformadoras”, afirma Wagner Tameirão, gestor do Memorial Vale.
Além da mostra “Oriará”, o Memorial Vale Itinerante conta com outras iniciativas. Entre elas, o Quintal do Memorial que leva à Praça da Liberdade uma série de atividades culturais e educativas.
Memorial Minas Gerais Vale
Um dos espaços culturais que integram o Instituto Cultural Vale, o Memorial Vale faz parte do complexo cultural Circuito Liberdade, em Belo Horizonte. De 2010, ano de sua inauguração, até julho de 2024, o espaço recebeu mais de 1,5 milhão de pessoas. São mais de 3 mil eventos realizados, 106 exposições, quase 9 mil escolas e grupos atendidos e cerca de 240 mil pessoas recebidas em visitas mediadas.
Atualmente, o edifício-sede que abriga o espaço passa por obras de renovação para adotar uma nova estratégia de ocupação museográfica e infraestrutural. Criada a muitas mãos, a nova expografia permanente tem a curadoria de Isa Ferraz e Marcelo Macca e fará uma mistura inédita de obras de arte, objetos históricos e peças audiovisuais criadas especialmente para o Museu, propondo um diálogo entre o ontem, o hoje e o amanhã no qual o visitante é o protagonista.







